Ghost Rider

Você lembra de esperar pelo domingo de manhã para ver “Profissão: Perigo” na rede Globo? Acompanhávamos as aventuras do agente secreto não muito discreto chamado MacGyver, que com seu canivete suíço e coisas que achava no lixo, dava jeito em tudo, desde ignição de carro até desarmar bomba nuclear. Só não dava jeito naquele corte de cabelo…

Se você está lembrado disso, provavelmente a música de abertura ecoou por agora em seus ouvidos. A música se chama “Tom Sawyer”, e é da banda canadense Rush.

O tema deste texto é os livros do baterista e percursionista do Rush, Neil Peart.

Batera do Rush

Dizer que o Neil Peart é baterista e percursionista é pouco em vista do tanto que trabalhou, e para nossa sorte, trabalha na banda Rush. Do caráter menos público de suas atividades está a de letrista e compositor. Uma carreira promissora depois de um começo tumultuado.

O jovem Peart queria fazer da música seu meio de subsistência. Então, como tantos jovens fizeram antes, partiu para um país onde o rock tem tradição maior do que no Canadá. Errou quem pensou EUA, Peart partiu para a Inglaterra, estabelecendo-se em Londres. Uma grande influência para si foi Keith Moon, do The Who.

Muita leitura, muito estudo, mas a vida de música na capital britânica não deu muito certo. Sem dinheiro e perspectiva, voltou para o Canadá para trabalhar com o pai em uma fábrica. Passado algum tempo, ouviu falar de uma audição para baterista em uma banda que já estava atuando. Meio a contragosto, como quem já havia desistido de viver de música, pôs os instrumentos na caçamba de sua camionete caindo aos pedaços – dizem que dentro de latões de lixo – e partiu para a apresentação.

Ao lado de Geedy Lee e Alex Lifeson, a banda Rush montou a sua segunda formação, rumo ao estrelato.

Vida difícil

Depois daquela audição confusa, ao fim daquele dia, fora integrado à banda. Muito rapidamente assumiu o papel de letrista da banda também. O primeiro álbum da banda nessa formação foi “Fly by night”, de 1975. Recebido com entusiasmo, se mostrou a porta de entrada de um futuro promissor. Vida de música, cheia de altos e baixos, sucesso seguido de esquecimento. A banda foi brilhar mesmo nos anos 80, e depois entrou naquilo que podemos chamar de “velocidade de cruzeiro”, nos anos 90.

Segurança econômica Peart já possuía, consagração como músico também; nada disso pode impedir as tragédias de virem, contudo. Em 1997, sua filha faleceu em um

acidente automobilístico, e, em menos de dez meses depois, sua esposa perdeu a batalha para o câncer.

Como continuar depois disso? Como prosseguir com os compromissos intermináveis de turnê, incluindo apresentações e entrevistas? Peart não podia continuar com tudo isso, precisava antes de qualquer outra coisa, reconstruir a própria vida. Durante o funeral da sua esposa, falou aos colegas que estava se aposentando.

Com isso, a banda Rush teve de fazer uma pausa, entrou em modo de espera, por assim dizer. Todos iriam se reinventar, mas o tempo é quem iria responder os caminhos que cada um teria de percorrer para isso.

Ghost Rider

Para Neil Peart, o caminho para se reinventar foi viajar. Pegou a sua motocicleta, capacete e óculos, e abraçou a estrada. Viajou cerca de 88 mil quilômetros, descendo pelo Canadá até o norte e o centro dos EUA. O itinerário era ditado pela estrada e pelo vento, seguia sua vontade e prosseguia acompanhado pela moto e lembranças. O resultado dessa viagem pode ser encontrado no livro Ghost Rider: Travels on the Healling Road. O livro pode ser encontrado em português sob o título Ghost Rider: a estrada da cura, publicado no Brasil pela editora Belas Letras. E um livro de viagem no sentido mais clássico do termo, com indicações dos percalços e das dificuldades, sem se preocupar tanto com pontos ou atrações turísticas. No coração disto tudo está o ato de viajar, não as fotos que se pode tirar para colocar no Instagram.

A recepção do livro no Brasil não foi muito boa, a maior parte dos leitores esperava um Comer, rezar e amar para o público masculino. Devido a essa recepção morna, os demais livros de viagem (agora não por causa de tragédias, mas sim pelo hábito adquirido) de Peart não possuem nem previsão de lançamento no Brasil.

Se você procura um livro de viagens, esse é o título que você precisa ler. Se você busca por autoajuda, não é nessa obra que você irá encontrar isso.

Rush nos dias de hoje

Depois de 5 anos afastado, na viagem que resultou no livro citado acima, Peart voltou para a banda e o Rush se reinventou. O estilo está muito mais próximo ao metal do que nos anos 80, o que você pode conferir ao comparar a música “Tom Sawyer”, aquela do MacGyver, com a atual “Far Cry”.

Falando em MacGyver, está para estrear o remake da série, no Brasil. Sinto em dizer que muito provavelmente seremos desapontados, principalmente os saudosistas que acompanharam a série pelas manhãs de domingo adentro. Contra série ruim, não há proteção, para as outras situações, há Facility. Afinal, quem tem Facility tá tranquilo.

2017-10-30T16:15:16+00:00